Na tela
do computador, o profissional bem-sucedido toca mais
um projeto importante.
"Eu sou engenheiro eletricista", conta Sérgio
Fagundes.
Em uma empresa de materiais recicláveis, um
garoto vendia papel para ajudar a família. "Juntei
uns 600 quilos", revelou certa vez. O menino que
juntava papelão e o engenheiro são a mesma
pessoa. Dois mundos separados por quase 30 anos de história.
"Acredito que sem aquela dificuldade talvez não
tivesse tanta força para chegar aonde eu cheguei",
explica o engenheiro.
No fim da década de 70, a família Fagundes
- Sérgio, o pai, a mãe, seis irmãos
mais novos - trocou a roça por Londrina, fugindo
da pobreza. Mas a vida na cidade continuou difícil.
O dinheiro era curto. Para reforçar o orçamento
em casa, o filho mais velho foi para as ruas e virou
catador de papel.
"Ele vinha todo dia buscar material. Quando não
vinha à tarde, vinha de manhã", lembra
o comerciante José Bernardi.
"Em um dia eu acumulava de 100 a até 300
quilos", lembra Sérgio.
O começo dessa trajetória foi registrado
por acaso, em 1983. Uma equipe da Rede Paranaense, afiliada
de Rede Globo, mostrava o comércio de produtos
recicláveis. E o menino esforçado, de
apenas 11 anos, chamou a atenção.
Quase 30 anos depois, Sérgio lembrou dessa história
e entrou em contato com a emissora, pedindo cópia
da reportagem. O material foi localizado nos arquivos
e, em uma sessão especial, foi apresentado para
a família. Na emoção de Sérgio,
o conforto do filho. E a aflição revivida
da mãe, a única que assistiu à
reportagem naquela época.
"Meu coração caiu pelo chão.
Aquele dia foi muito triste para mim. Chorei o dia inteiro.
Eu tinha que tirar meu filho daquela vida, ele não
podia ficar nessa vida de jeito nenhum", conta
a mãe Helena Aparecida Fagundes.
Foi o primeiro passo para a mudança. "Se
eu não ganhasse nada naquele dia, não
importava. O importante era eu ir para a escola. A prioridade
era a educação, ter conhecimento",
explica Sérgio.
E observando um vizinho de vida bem mais confortável
veio a decisão. "Procurei saber o que ele
fazia e fiquei sabendo que ele era eletricista e falei:
É isso que vou ser", conta.
E foi. Só que não se conformou com o
primeiro diploma. Queria mais. "Continuei estudando
, fiz o curso técnico. Fiz técnico em
eletrotécnica. Passei a dar aula para curso profissionalizante
industrial. Ministrei aulas por quatro anos. Após
isso, fiz o curso de engenharia elétrica",
diz.
Adolescente, ele arrumou emprego em uma empresa do
ramo. A mesma em que está há 20 anos.
E a carreira deslanchou. Hoje Sérgio é
o gerente de projetos.
"É um exemplo de vida muito importante
para todo mundo usar como espelho e como referência.
Mostra que uma pessoa de uma formação
muito simples pode ter sucesso na vida", afirma
o diretor Hamilton Iranaga.
Por muitos anos, Sérgio preferiu não
recordar os momentos difíceis da infância.
Hoje, com orgulho, ele leva o filho até o centro
de Londrina para recontar a sua história.
"Era um trabalho digno, porém de muito
sacrifício, muito esforço. Eu tinha que
ter força no braço", lembra Sérgio.
"Tive a oportunidade de ter isso registrado e isso
fez a diferença, para mostrar que não
é o dinheiro que faz a diferença e, sim,
o sonho que a pessoa tem. O que deseja e tem no coração,
ela conquista. Basta não desistir".
Fonte: Globo Repórter
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